Em 1944 passei o ano em Carolina MA, com meus avós e uma
tia. Ao final do ano letivo, minha mãe Margarida, de apelido Guidu, e meus
irmãos José e Antônio foram passar as férias em Carolina, a partir de Balsas
MA, onde morávamos. O José narrou-me essa viagem e pediu-me para colocar em versos.
Eu o fiz e acrescentei a viagem de volta, da qual participei.
VIAGENS PELO SERTÃO
Narrador: José O. Freire
Versejador: Francisco O. Freire
Mui difícil é descrever
Viajar pelo sertão
É preciso ver pra crer
Se o veículo é caminhão.
De Balsas foi a partida
Bem no sul do Maranhão.
A viagem foi sofrida,
A estrada era de chão.
Minha mãe, dona Guidu,
O Antônio, meu irmão,
De apelido “jaburu”,
E eu, José, no caminhão.
Mais doze, eu somaria,
Que estávamos presentes
Naquela carroceria
Não muito benevolente.
Por destino Carolina
Distante 40 léguas.
Tinha ravina, colina
E sacolejo sem trégua.
Foi pelos anos quarenta
Lá do século passado.
Íamos à marcha lenta
No veículo abarrotado.
Não poucos sacos de sal
Era a carga que levava.
Sobre eles, muito mal,
A gente se acomodava.
Assim ia o “pau de arara”
Viajando em qualquer tempo.
Ora o sol em nossa cara,
Ora chuva e muito vento.
Certa vez o motorista,
Ao subir uma ladeira,
Não tendo socorro a vista,
Demorou uma tarde inteira.
Quando o veículo parava,
O homem abria o capô.
O motorista procurava
Por defeito no motor.
A sede nos castigava
Como fora num deserto.
A garganta nos secava,
Nenhum rio ou fonte perto.
Choveu bastante em seguida
Pra acabar nossa aflição.
E aquela água tão querida
Restava em poças no chão.
A higiene foi esquecida,
Ninguém parou pra pensar.
Não havia outra saída:
A sede fomos matar.
Após muitas tentativas,
O motorista conseguiu.
Alegres, gritamos VIVAS,
E o caminhão logo partiu.
Pela ruindade da estrada,
Um dia só era pouco.
Tínhamos de achar pousada
Na cabana de caboclo.
O motorista conhecia
Um lugar onde pousar.
Ainda à luz do dia
Todos fomos para lá.
Todos, todos, digo não.
Fomos retardatários
Somente eu e meu irmão
Que bancamos os otários.
Tínhamos que carregar
A caixa de provisão.
Foi a razão de demorar
Descermos do caminhão
O caminho era estreito.
Tiveram que ir a pé,
Pois não tinha outro jeito,
À cabana de sapé.
Os que ficamos pra trás
Não vimos aquela trilha.
O que andamos foi demais
Muito mais que uma milha.
Uma chuva muito forte
Apanhou-nos sem chapéu.
Foi muita falta de sorte.
Relâmpagos riscavam o céu.
Após tanto caminhar,
Ficamos desconfiados:
- Meu mano, melhor voltar,
Podemos estar errados.
Voltando pro caminhão,
Minha mãe lá esperava
Com a mão no coração.
Tranqüila é que não estava.
Uma bronca nos custou,
O inusitado incidente.
Minha mãe quase chorou.
Por fim ficou sorridente.
Ao chegarmos à palhoça
Vimos todos em aflição.
Mas tudo acabou em troça,
Comigo e com meu irmão.
Quando o povo se acalmou,
Fizemos nosso jantar.
O bate papo rolou
Até o sono chegar.
Armamos as nossas redes,
Assim da nossa maneira.
Pois não havia paredes,
Só pilares de madeira.
Dos sapos o coaxar
E dos grilos o cri-cri
Ajudaram a relaxar
E nos puseram a dormir.
Dia seguinte ao acordar,
Enchemo-nos de coragem.
Mister é continuar
Nossa sofrida viagem.
Pela estrada foi então,
Com a pressa de chegar,
O pesado caminhão
Que não devia parar.
Porém surge a nossa frente
Grande pé de bacuri.
- Eu lhes digo minha gente
- Temos que descer aqui.
Assim falou o motorista
E completou em seguida:
- Creio, não há quem resista
A essa fruta tão querida.
Descemos e nos fartamos,
Enchemos nossa bagagem,
Ao caminhão retornamos
E prosseguimos viagem.
Ao chegarmos ao destino,
A alegria era uma só.
Abraçamos com carinho
Meu avô e minha avó.
Que férias maravilhosas
Foi-nos dado desfrutar.
Mas nem tudo é mar de rosas:
Chegou a hora de voltar.
Nosso meio irmão João
Pra salvar algum dinheiro
Adotou por profissão
O ofício de tropeiro.
Como carga trouxe sal
E voltaria com couro.
Pra quem é duro, nada mal:
Esse frete vale ouro.
Era, pois, a nossa chance
De essa carona pegar.
E não perdemos o lance
Com ele iríamos voltar.
Já estava na cidade
Francisco, meu outro irmão
Com nove anos de idade,
Muito alegre e brincalhão.
Voltaria com a gente,
Pra aproveitar o momento.
Sem montaria decente,
Era mula ou jumento.
Em vez de sela, cangalha
Pro traseiro machucar.
Vovó trabalha, trabalha
Pra esse incômodo evitar.
Foram feitas almofadas;
A viagem era longa.
De volta para a estrada
Partimos sem mais delonga.
Mesmo em marcha ritmada,
A jornada foi sofrida.
Apesar da almofada,
“Certa parte” foi ferida.
Um cavalo foi picado
Por uma cobra malvada.
Ficou logo adoentado,
Não servia pra mais nada.
Minha mãe, que o montava,
Ficou logo impaciente.
O que a angustiava
Era o pavor da serpente.
O cavalo foi trocado
Não havia outro jeito.
Por um novo, emprestado,
Que ao trabalho estava afeito.
Foi favor de um fazendeiro
Muito bom de coração,
Que era amigo de um tropeiro
De nome Sebastião.
Meu irmãozinho Francisco
Meteu-se numa roubada.
Escapou de grande risco
Por um triz ou quase nada.
É que um galho a sua frente
Ameaçou seu pescoço.
Mas o “Chico” é inteligente
Livrou-se dessa, seu moço.
Pendurou-se nesse galho,
Deixou o jumento passar.
Evitou virar frangalho.
Pulou, voltou a montar.
E a jornada prosseguia
Pontuada de incidente.
Pra não chorar, a gente ria
E aliviava a nossa mente.
Pra não falar do mau tempo,
Que era chuva todo dia.
Esse grande contratempo
Era o que ninguém queria.
O tormento era presente
Em cada trecho da estrada.
O sol omisso e ausente
A chuva sempre pesada.
Tivemos que nos molhar
Em córregos transbordando.
Preciso era atravessar,
Quer montado ou nadando.
Por fim avistamos Balsas
E não era uma miragem,
Entoamos uma valsa
Pelo fim dessa viagem.
A alegria era tanta
Minha mãe quase chorou.
Ela que era uma santa!
Seu sofrimento acabou.
Durou mais de uma semana
Essa nossa aventura.
Quem teve a idéia insana
De propor essa loucura?
Mas essa incrível aventura
Plena de dificuldade,
Em nossa mente perdura
Com o sabor de uma saudade.